O novo Coronavírus mudou a vida da gente. Eu sei que é feio dizer "gente" mas se a Mariza diz e é da Mouraria, eu sou de Cascais não posso dizer, quesver.
É verdade, isto mudou-nos a todos. Estamos que nem podemos, entravados em casa, à espera de melhores notícias. E a culpa é toda nossa. Sim, nossa. Nós é que acusámos o vírus das coisas erradas e ele voltou-se contra a gente. Pronto, contra nós. Aqui "gente" fica feio. Só se dissermos "a gente acusámos o vírus." Aí sim. Se é para falar à Mariza, é para falar à Mariza. Mas adiante.
O vírus virou-se contra nós (por isso é que se chama "vírus", porque se virou a nós. Se nos tivesse ajudado, era "ajúdus"). E virou-se contra nós, infectando e matando uma porrada de gente, obrigando-nos a uma quarentena desmedida, porque não o respeitámos. Porque só falamos das coisas más de saúde que ele provoca. Infectar pessoas e pô-las a respirar mal? Isso não é o pior, isso é na peida. Com isso podemos nós, já aturamos os concertos do Tony Carreira, no Parque Eduardo VII, e a Casa dos Segredos há demasiados anos. O vírus ao lado destes é uma pechincha. Já estamos mais que vacinados.
Aliás, foi exactamente por essa razão que demoraram imenso tempo a equipar os hospitais de ventiladores. Estavam todos no Parque Eduardo VII para reanimar os que perdiam a vontade de viver mal se ouvia: "Depois de ti mais nada!" Acho que é assim a letra da música dele. Só sei mesmo a original.
Portanto, o pior do vírus não são os sintomas ou os danos físicos. O pior do COVID é ter-nos tirado o que mais gostamos - o calor humano. À parta da Marta, a minha namorada, a única pessoa quem eu mantive contacto porque ambos sempre tivemos imenso cuidado, já não dou um beijinho nem um abraço a alguém há colhões. Desculpem o palavrão mas aqui justifica-se. Já nem sei dar beijos nem abraços. E é aqui que o vírus é letal. Obrigou-nos a cumprimentarmo-nos com os cotovelos e os pés.
Este é que foi o principal transtorno do vírus e nós nem nos apercebemos disso. E claro, o vírus passou-se pela desconsideração e lixou-nos com a obrigatoriedade de estabelecermos contacto e olharmos para os cotovelos e para os pés. Esta é a pior consequência, para o futuro, do Coronavírus.
Parece que já imagino como vamos ser infelizes:
-Epá olha ali aquela gata!
-Xi... que mulheraça! Olha para o cotovelo dela!
-Iiiii que tesão, xaval! Bem, dava-lhe cá uma cotovelada nos dentes!
-E aqueles pés? Epá, dava-lhe uma biqueirada nas costelas, era a noite toda a partir osso.
-E eu depois dos dentes, espetava-lhe uma cotovelada no sobrolho para lhe abrir a cabeça! Era só sangue, ui, molhava-a toda logo!
E os piropos? Vão ser coisas francamente bizarras:
-Olha olha... mas que belo tornozelo levas aí... anda cá filha, agarrava nesse cotovelo e fazia-me um mata-leão a mim próprio que era uma maravilha!
-Ui ui... com esses bracinhos e esses pézinhos até deves nadar até ao Brasil!
Um tesão, de facto. Aliás, quantas e quantas vezes eu tive uma mulher nua à minha frente e, em vez de introduzir o meu lóló na patareca da moça, quis dar com ele ali na dobrinha do braço, mesmo em cheio no cotovelo. Por alguma razão começa com CUtovelo. É a nova peida. E o pé o novo pipi.

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