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A eterna questão dos estrábicos

Eu adoro as várias características dos seres humanos. A sério, gosto da diversidade. E gostava que as características que temos influenciassem directamente a nossa forma de viver.

Um amigo meu, por exemplo, é anão. E, dada essa característica, gostava que os anos dele não tivessem 365 ou 366 mas sim 483. Porque isso é que seria um verdadeiro anão. Ou isso ou ele dizer, a cada vez que lhe acontecesse alguma coisa de mal: "Ah não..." Isto teria muito mais a ver com ele.

Tenho outro amigo com diabetes. A banda preferida dele deviam ser as Doce ou os Fúria do Açúcar. E quando estivesse bêbado, deveria cantar: "Agora fiquei doce, doce, doce, doce..." Isto coincidia com ele.

Uma amiga minha é estrábica. E não sabe discutir, é uma jovem pacífica. Mas lá está, devia estar sempre a fazê-lo. Ganharia sempre a argumentar numa discussão porque, quando as pessoas apresentassem um ponto de vista, ela teria dois. E bem distantes um do outro, o que abrangeria bastante mais espaço entre os argumentos.

E esta é, provavelmente, das características físicas que eu gosto mais - o estrabismo. Para já, é um desafio. Quando estamos a falar com um vesgo e começamos a ver um dos olhos a desviarem para Cacilhas, pensamos sempre: "Oh merda... e agora, para que olho é que eu olho?!" Querem maior desafio que este?


Eu comecei a adoptar um modus operandis que, de facto, resultava, mas era muito pouco discreto - começar a falar e a abanar a cabeça de um lado para o outro, num espaço de um metro entre cada movimento. Porra, um dos olhos há-de apanhar! Mas chamava, com efeito, bastante a atenção e a pessoa percebia.

Há uns que começam a andar para o lado enquanto deixam a cabeça para trás. Isto é ainda pior que o meu método, não façam isto. Porque a cabeça não é dissociável do resto do corpo, logo vocês vão-se dobrar e a pessoa vai sentir que está a falar com uma girafa com o cio.

Quem poderia tirar bastante partido de ser estrábico seriam os jogadores de futebol. Na altura de marcar um penálti, olhavam para a esquerda e a bola ia para o meio ou para a direita. O guarda-redes podia alegar irregularidade física mas, lá está, quando se dirigisse ao árbitro, o estrábico apareceria e iria falar com o árbitro e com o guarda-redes ao mesmo tempo. Isto impressiona qualquer um e o árbitro iria decidir pelo estrábico porque consegue mandar um olho para cada lado.

Dada a minha naturalidade na vida, eu encaro o estrabismo com naturalidade e, como tal, até reconheço uma vantagem nos estrábicos - eles têm super-poderes sociais. Porque estão a falar convosco, passa alguém ao lado e o olho desviante vai-se apontar a essa pessoa, convidando-a para a conversa. É brilhante, consegue-se falar com alguém com um olho e convidar outra pessoa que passe com o outro olho. Qual camaleão, qual quê. Esses mudam de cor para se protegerem. Os estrábicos agem mesmo em plena luz do dia, à frente de toda a gente. Não precisam de mudar de cor. Mudar de cor é para pussies. Os estrábicos é que a sabem toda.

Um estrábico também pode tirar partido deste super-poder quando quiser ofender alguém na rua, passando-se depois por parvo e saindo ileso da situação. Por exemplo, chega ao carro e vê que um agente da EMEL o multou. Quando o agente está a passar:

-Seu palhaço, hás-de ter um ataque de caganeira hoje a meio da noite, seu atrasado mental...
-O quê? O que é que me chamou? Desculpe, mas vou ter que alertar as autoridades para o deterem!
(O estrábico manda o olho para um sem-abrigo) -Han...? Eu estava a falar com este Zé...
-Mas está a olhar para mim!
-E para o sem-abrigo, olha a merda. Não consegues fazer isso? Eu consigo...

O estrábico ganha.

E, na verdade, o que estará a passar pela cabeça do estrábico seria o que nos passaria a todos: "PODES CONTINUAR A PASSAR MULTAS MAS NUNCA SERÁS UM VERDADEIRO ESTRÁBICO!"

O que o faz ganhar aqui também. Perante esta dualidade de critérios, ou de olhares, vá, não há, de facto, argumentos.

A única coisa que me assusta é o olho que nos fica a observar, enquanto o outro se desvia. Parece que fica lá a mirar-nos com intimidação, como que a dizer-nos: "Ó palhaço, eu sou o único olho que está aqui. O outro bazou e tu não sabes para qual olhar? Dá-me atenção a mim, fui eu que fiquei aqui para ti..." E realmente esse olho merece mais. Porque foi o que ficou lá para nós. O outro nem quis saber. Meteu a segunda e cagou em nós para assumir um novo campo de visão. Mas aquele ficou fiel a nós e à nossa conversa. É a esse olho que nos devemos subjugar - ao Olho Fiel. Que vos piscará com cumplicidade.

Se apanharem uma porca, ela piscará um terceiro olho, convidando-vos a trespassá-lo e a terem outro ponto de vista dela. Mas isso já são outros QUinhentos.

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