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O flagelo dos Smarts

De todas as profissões, a que eu acho que poderá ser a mais frustrante é a de ventríloquo. Porque, por mais cheia que esteja a sala onde está a actuar, vai estar sempre a falar para o boneco.

Mas não é sobre isto que eu vou escrever.

A Lili Caneças é minha conterrânea, sendo a nossa super-heroína aqui de Cascais. Mas ela arrisca demais a vida dela - já fez tantas plásticas que se anda a esticar. Mas também não é sobre isto que eu vou escrever.

Quero falar sobre a coisa que mais nos ilude na vida. A vida é feita de ilusões e desilusões. Mas há uma que bate todas as outras. Não, não é quando uma pessoa vos está a fazer olhinhos na discoteca e vocês, ao se aproximarem, percebem que ela está, afinal, com uma impressão por causa da lente de contacto. Não, também não é quando vos falam ao longe e vocês pensam que é para vocês, para depois passar uma pessoa ao vosso lado, a mirar-vos com ar de: "Quem é que este gajo pensa que é? O Zé falou-me foi a mim..."

A maior desilusão na vida é quando estamos à procura de lugar num sítio particularmente cheio, conseguimos encontrar um e, ao nos sentirmos com aquele alívio e satisfação... É UMA MERDA DE UM SMART E POR ISSO É QUE NOS PARECIA UM LUGAR VAGO.


Quer dizer, surgem em nós imediatamente dois sentimentos - de alívio, porque já nos livrámos de andar às voltas e de não conseguir arranjar mesmo um lugar naquele lodo, que é um alívio bastante semelhante ao de um xixi depois de três horas a andar de metro de um lado para o outro (porque só uma ou duas estações é que têm casa-de-banho. E se têm); e de satisfação porque, queiramos ou não, acabamos por nos sentir superiores em relação ao desgraçado que continua, atrás de nós, a tentar encontrar lugar para estacionar.

E perante estes feelings (tive espanhol na faculdade e gosto de me exibir, desculpem), vamos a estacionar e, num repente, em que nos passamos a sentir uma bosta fumegaste, vemos que o lugar não só não está vago como está lá um Smart. Por ser tão pequeno, nem o vimos. Geramos de imediato aquela raiva contra a pessoa que tem o Smart e aos próprios Smarts, que nos dá a vontade de gritar: "SO, DO YOU THINK YOU'RE SMART?! LET'S SEE IF YOU ARE THAT SMART WITH THIS GLASS BROKEN!" (Tive francês na secundária, desculpem)

Porra, comprem um carro a sério, que não se locomova só a acelerar e a travar. Parecem os carros da Chicco. É que nem mudanças aquela merda tem, é só para a frente e para trás! Querem andar nisso, vão ao centro comercial do vosso bairro, metam uma moeda de 0,50 € e curtam naqueles carrinhos do Batman ou do Noddy. AÍ É QUE FAZIAM MELHOR FIGURA, EM VEZ DE NOS ESTAREM A TIRAR LUGARES AOS CARROS A SÉRIO.

Quer dizer, um veículo que se enche com três quilos de urina, que nem capot tem para levar uma amolgadela, é considerado um carro? Não é uma trotinete com chapa e mais umas rodas? É que mal um gajo cabe lá dentro. Já tentaram pinar num Smart?! Não tentem! Da última vez que tentei, enquanto me mexia já tinha a manete das mudança (falsas) a bater-me nos tintins e a rapariga tinha a cabeça enfiada no porta-luvas.

O que, aliás, até nem foi mau de todo. A cabeça não era propriamente o seu forte. A bem da verdade, ela era tão gorda que o seu forte era o resto do corpo. Eu nem sabia se estava a pinar uma mulher ou o Forte de São Julião da Barra, em Oeiras. Bem, mas a mensagem é: o carro é minúsculo.

E depois o nome. Smart. É tão arrogante como irónico. Quer dizer, um carro que se podia prender ao porta-chaves mas que se chama "Esperto". É a mesma coisa de eu ter um Doberman que se chame Simba. Em vez de gritar: "Mata! Esfola! Viola aí essa Bichon Maltês!", grito: "Foge! Isso, fica debaixo do carro! Cuidado senão esse Caniche vai-te ao cu!"

Mas não, eu sou um Smart. Eu sou bué esperto. Eu sou melhor que os outros. HAVIA ERA DE UM FIAT PUNTO DE 1998 IR-TE AO ESCAPE PARA VER SE APRENDIAS A NÃO TE ARMAR EM CHICO-ESPERTO PARA OS OUTROS CARROS E NÃO OS ILUDIRES NOS ESTACIONAMENTOS.


Prefiro ter o tipo de ilusões daqueles anormais que, quando um vidro está tão bem lavadinho, estão bêbados ou é de noite (ou os três em simultâneo) e se espetam contra os vidros. Isso sim, é uma ilusão legítima. E um gajo até pode argumentar porque ou o vidro está lavado, ou está bêbado ou é de noite (ou os três em simultâneo). Agora, levar baile de um Smart?! É como sermos assaltados por um anão.

-Chaval, gira lá da guita.
-Han? Deus? És tu que me estás a assaltar...?
-Não chaval, sou eu!
-Quem é que está a falar...? Epá, onde é que estás?

Um gajo nem o vê. É mau demais.

Olhem, como dizem os alemães: "C'est la vie." (Não tive alemão mas sei que é assim que se diz. Estou-me novamente a exibir, desculpem)

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