Todos viram o que aconteceu com a Ministra da Cultura, Graça Fonseca. Se não viram, é fácil explicar: é melhor passar fome que o Estado não ter obras na sua colecção. Foi mais ou menos isto.



Mas vá, eu explico melhor para poder apresentar o meu ponto de vista. O Estado adquiriu 65 obras de arte contemporânea para a sua colecção, pagando 500 mil euros por elas, valor que se prevê que suba até um milhão de euros até ao fim da legislatura. Isto quando há cerca de 150 famílias da área da Cultura, que ficaram sem trabalho devido ao vírus, que estão a ser ajudadas para...comer.
Numa iniciativa nobre e humanitária, voluntários juntaram-se e criaram a União Audiovisual, entidade que providencia essa ajuda alimentar. Que não faz, de acordo com a ministra, sentido nenhum. Pelo menos, quando os jornalistas a abordaram sobre isto, ela respondeu: "Hoje só falo de arte contemporânea. Portanto, muito obrigada e vamos beber o drink de fim de tarde."
Ela tem razão. Porque o que é importante é pegar em um milhão de euros e, em vez de ajudar as pessoas da sua pasta no Governo, comprar obras de arte. Sim, são de cultura, mas podem muito bem passar sem ser compradas já.

A não ser que Graça Fonseca, a avaliar pela sua pinta de cientista avariada, ande a fumar caldos Knorr ou árvores inteiras e pense que a Vénus de Milo, por ser uma estátua de uma figura humana, possa ficar deprimida se ninguém a comprar ou precise, também ela, de alimentação.
Mas isto até tem uma ponta de sentido. Afinal de contas, passar fome é na peida. O importante é a colecção do Estado estar rica senão ele chora. Tsss, esse Estado deve pensar que manda. Eu não sei quem é mas é mesmo muito egoísta ou mimado. Pelo menos, mama de todos.
A cena é serem para a colecção do Estado. Eu nem sabia que o Estado tinha uma colecção. Quer dizer, sabia, mas era só de cromos: o Portas, o Jerónimo de Sousa, o Sócrates, a própria Graça Fonseca. Ui, deve ter uma daquelas cadernetas enormes. Então o Sócrates deve ser aquele cromo brilhante, lá em cima de todos os outros, sabem? Com dourado ou prateado atrás, tipo capitão de equipa.
Realmente, faz mesmo sentido. Temos milhares de pessoas que trabalham na área da Cultura, e em outras, a morrer à fome. Epá isso é chato mas TEMOS DOIS PICASSOS E UM SALVADOR DALÍ NA COLECÇÃO DO ESTADO. Ah não, estas obras não podem ser. Não é por não serem contemporâneas, é mesmo porque não se podem comer.
A não ser que... é isso! São obras comestíveis! Dada a criatividade dos artistas das obras que o Estado adquiriu (que não está mesmo a ser posta em causa porque eu adoro arte e respeito-a muito), eles fizeram, certamente, uma versão da obra com comida. Logo, quem estiver com com fominha, pode lá passar e servir-se delas!

Aliás, a obra Marilyn, de Joana Vasconcelos, já apresenta esse carácter pioneiro. Sendo feita com panelas, é só levar comida e um prato para lá, esperar e tirar quando estiver pronto! Porra, andamos mesmo a dormir. A Graça Fonseca é que, afinal, a sabe toda.
Vou mas é mandar o vómito de fim de tarde.
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